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PARTE II
O TAOÍSMO PRIMITIVO: YANG CHU E LAO TSÉ

Enquanto progredia esse movimento do humanismo confucionista, o Taoísmo naturalista se desenvolvia paralelamente, por caminhos difefentes mas com objetivos de vida similares. Assim como o fim do Confucionismo é a vida plenamente desenvolvida, o do Taoísmo é a vida simples e harmoniosa. Embora o termo "Taoísmo" (tao chia) só viesse a ser usado no século I a.C., nos Registros Históricos (Shih Chi) do Ssu-ma Ch'ien (145-86 a.C.), o movimento taoísta já devia ter então alguns séculos. Mas, se foi Yang Chu ou Lao-Tsé o primeiro líder do movimento é ponto controvertido.[explanação 1] No caso de Yang Chu (aproximadamente 440-apr. 366 a.C.), o espírito é, certamente, de simplicidade e harmonia. Ele não era um hedonista que insistia com todos os homens para "gozarem a vida" e para se satisfazerem com "uma casa confortável, boas roupas, boa alimentação e belas mulheres", como o descreve o espúrio Lieh Tzü do século III a.c. ou um egoísta "que não teria arrancado um só fio de cabelo ainda que com isto viesse a beneficiar o mundo todo", como Mêncio de propósito o fez parecer. Era antes um seguidor da natureza interessado principalmente em "preservar a vida e em conservar intacta a essência do nosso ser e em não magoar a nossa vida material com coisas", "um homem que não entraria numa cidade em perigo, que não se alistaria no exército nem mesmo trocaria um fio de cabelo pelos lucros do mundo inteiro". Mesmo no capítulo intitulado "Yang Chu" em Lieh Tzü, a ênfase principal era "deixar a vida seguir seu curso livremente" e ignorar, não apenas a riqueza e a fama, mas também a vida e a morte. Foi esta ênfase naturalista que o tornou o taoísta representativo do seu tempo.
No caso de Lao Tsé, a linha mestra em seu Tao-tê Ching é a "simplicidade", uma idéia central pela qual outros conceitos aparentemente estranhos devem ser entendidos. Uma vida "simples" é uma vida de naturalidade na qual o lucro é descartado, a esperteza abandonada, o egoísmo minimizado e os desejos reduzidos. É a vida da "perfeição que parece incompleta", da "plenitude que parece vazia", da "retidão absoluta que parece desonestá", da "habìlidade que parece desajeitada" e da "eloqüêncìa que parece gaguejar". É a vida de "produzir e cultivar coisas sem apossar-se delas", de "fazer um trabalho mas não orgulhar-se dele", e de "governar as coisas mas não dominá-las". É a vida que é "pontiaguda como um quadrado mas não fura, afiada como uma faca mas não corta, reta como uma linha distendida mas que não se estende, e brilhante como luz mas que não ofusca".
Outras idéias fantásticas do Taoísmo se desenvolveram e morreram, mas este é o fator vivo que fez dele uma fibra forte da ética chinesa, ainda hoje. É o ponto de acordo com o mais pnderoso sistema intelectual da China, a saber, o Confucionismo.
É verdade que Lao-Tsé foi extremamente crítico a respeito da ordem existente, ao ponto mesmo de exclamar que "Quando o Grande Caminho (Tao) estivesse obliterado, a benevolência e a justíça surgíriam. Quando a sabedoria e o conhecimento aparecessem, a hipocrisia emergiria." Mas denunciou a civilização com a mesma disposição com que atacou a guerra, a cobrança de impostos e o castigo, essencialmente por causa do seu caráter excessivo e destruidor. Lao-Tsé não foi desertor da civilização. De acordo com registros históricos autênticos, foi um modesto funcionário público. O Dr. Hu Shih opina que ele e Confúcio foram ambos ju, literatos do tipo sacerdote-professor, que levavam a tocha da civilização; que Lao-Tsé era um ju ortodoxo, um "ju dos mansos" que se agarravam à cultura dos povos conquistados do Yin, que se caracterizava pela não-resistência, pelo contentamento, etc., ao passo que Confúcio, apesar de ser descendente de Yin, era um ju de novo tipo, um "ju dos fortes", que advogava a substituição da degenereacente cultura Yin pela florescente cultura dos povos dominantes de Chou. Assim, devemos considerar Lao-Tsé um professor de vida simples, e não um desertor da vida.
É também verdade que Lao-Tsé ensinou a estranha doutrina do wu wei, geralmente interpretada como "inação". Mas é um erro pensar no wu wei como qualquer coisa que sugira completa inatividade, renúncia ou o culto do inconsciente. É antes um modo singular, ou, mais exatamente, o modo natural, de comportar-se. "O sábio gere seus negócios sem declará-lo e divulga suas doutrinas sem palavras." O caminho natural é "suster todas as coisas em seu estado natural" e permitìr, assim, que elas se "transformem espontaneamente". Dessa maneira, "O Caminho não exerce nenhuma atividade, e, no entanto, nada resta por fazer." "O governante sábio faz coisas sem declará-las, e assim nada fica por regular." Por aí se vê ser bem claro que o caminho do wu wei é o caminho da espontaneidade, que deve ser contrastado com o caminho artificial, o caminho da esperteza e da moral superficial. Foi a vida de artificialismo que provocou o vigoroso ataque de Lao-Tsé e o levou a glotificar a realidade do inexistente, a utilidade do inútil e a força dos fracos.
Isto não representa esforço para substituir o ser pelo não-ser, nem o forte pelo fraco. É, antes uma afirmação da importância de ambos. O "eterno não-ser" e o "eterno ser" "vieram da mesma fonte mas aparecem com nomes diferentes". O verdadeiramente fraco é idêntico ao verdadeiramente forte. Como disse Lao-Tsé, "O que é o maìs perfeito parece incompleto" e "O que é o mais completo parece mais vazio".' Nestes enunciados, Lao-Tsé estava ainda um passo mais próximo do áureo meio. Na superfície, ele parece ser o defensor da mulher como o princípio fundamental da vida e da infância como o estado ideal do ser. Também parece advogar o vazio e a quietude. No fundo, entretanto, tal posição ética se aproxima muito mais do centro do que do extremo. "Já que falar demais sempre acaba em malogro, é melhor aderir ao princípio da centralidade."
A principal diferença entre Lao-Tsé e Confúcio está no fato de que, ao passo que em Confúcio a medida de todas as coisas é o Homem, em Lao-Tsé é a Natureza. A simplicidade, wu wei, e outros ideais éticos, são todos lições morais tiradas da Natureza, que é o padrão para o Céu e a Terra, assim como para o Homem. É o Caminho, ou Tao, o princípio universal da vida. É "a fonte do Céu e da Terra", e "a mãe de todas as coisas". É eterno, uno, onidifuso e absoluto. Acima de tudo, é natural.
Como a realidade é natural, nossa vida também deve sê-lo. Ser natural é viver como água, que é "semelhante ao bem mais elevado" e "quase idêntico ao Tao". A água "ocupa lugares que as pessoas detestam", mas "beneficia todas as coisas sem fazer qualquer exigência". "Não há nada mais brando nem mais fraco do que a água, e, no entanto, não há nada melhor para atacar coisas duras e fortes." A idealização da infância nada mais é do que a idealização do estado natural. Não é o estado de ignorância e incapacidade. É, antes, o estado de quietude, de harmonia e de introvisão. Acima de tudo, é o estado da vida.
"Tao produziu o um. O um produziu o dois. O dois produziu o três. O três produziu todas as coisas. Todas as coisas possuem yin (o princípío passivo ou feminino) e contém yang (o princípio ativo ou masculino), e a mistura da força vital (sh'i) produz harmonia." Conhecer essa harmonia chama-se "o Eterno" e conhecer o Eterno chama-se "Introvisão"."
Disse Lao-Tsé:

Alcance o completo vazio.
Mantenha inabalável quietude.
Todas as coisas nascem, e vejo por aí seu retorno.
Todas as coisas florescem, mas cada uma retorna à sua raiz.
Este retorno à raiz chama-se qüiescência;
Significa seu retorno de acordo com o seu Fado.
Retomar de acordo com o Fado chama-se o Eterno.
Conhecer o Eterno chama-se Introvisão.
Não conhecer o Eterno e agir cegamente é desastroso.
Conhecer o Eterno é ser liberal.
Ser liberal é não ter preconceito.
Não ter preconceito é ser compreensivo.
Ser compreensivo é ser grande.
Ser grande é ser como Tao (o Caminho).
Ser como Tao é (possuí-lo) para sempre e não falhar por toda a vida.


E esta, talvez, a passagem mais abrangente do Tao-tê Ching. Devemos notar que o clímax de todo o procedimento é "não falhar por toda a vida". Aqui temos o sabor humanístico do naturalismo. Não se deve abandonar a vida, mas torná-la segura e valiosa. A grandeza do Tao é perfeita basicamente porque nunca se considera grande. Quem conhece o contentamento não sofre humilhação. "Quem sabe quando parar não sofre desgraças. Ali ele pode estar são e salvo." "Apenas aqueles que não se atormentam com a vida se distinguem tornando a vida valiosa." Em resumo, a filosofia de Lao-Tsé pode ser resumida com sua frase "o caminho da vida longa e da visão duradoura".
Quando compreendermos esta ênfase em uma vida simples e harmoniosa no Taoísmo, estaremos em condições de ver por que essa filosofia naturalista e atéia deve ter sido erigida em fundamento de uma religião supersticiosa, notória pela sua prática da alquimia e pela crença nos imortais, da China Medieval. A razão, simples, é que o móvel básico da corrupta religião taoísta era buscar a longevidade. O efeito do movimento foi que o homem cada vez mais se apegou a uma filosofia negativa, perdendo confiança em si, assim como numa ordem social progressista. Tal atitude foi frontalmente contestada, não apenas pelo Confucionismo, mas também pelo Moísmo.


[explanação 1] Lao-Tsé é situado tradicionalmente por volta de 570 a.C. Nas duas últimas décadas, a teoria de Wang Chung (1744-1794), de que Lao-Tsé e o Tao-tê Ching pertenceram ao século IV a.C. toi ressuscitada e aceita por muitos eruditos chineses e ocidentais. Entre os primeims estão Liang Ch'i-ch'ao, Ku Chieh-kang, Fung Yu-lan (The History o/ Chineue Philosophy; tradução de Bodde, págs. 170 e segs.), Ch'ien Mu etc. Entre os últimos, Arthur Waley (The Way and Ita Pomer, 1934, págs. 101-108), Homes H. Dubs ("The Date nnd Circunstances of the Philosopher La-dz", Jaurnal o/ the Amenican Oriental Society, vol. LXI, n.° 4, dezembro de 1941, págs. 215-22R "The Identification of the Lao-Di', ibid., vol. LXII, n" 4, dezembro de 1942, págs. 300-304), etc. Embora o Dr. Hu Shih não afaste a possibilidade desta teoria sente que as provas para justificá-la são insuficientes ("A Criticism ot Some Recent Methods Used in Dating Lao Tzü", 1933, traduzido no Haruard Journal of Asiatic Studiet, vol. II, n.a 3 e 4, dezembra de 1937). [voltar]



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